O blog do Islam


 

 Escrito por Abd' al-Jamil às 22h24
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O fundamentalismo está na própria Sharī’ah

 

Precisamos tratar o movimento fundamentalista, não como um movimento religiosamente cismático em relação à ortodoxia (isto é, à Sharī’ah), mas qual é realmente, isto é, como movimento que se coloca no coração da Sharī’ah, da forma como esta foi fixada e dogmatizada até o quinto século da Hégira, e que vive, desde então, estagnada na repetição vazia e sem alma de seu próprio passado. [...]

A diferença entre o Islã ortodoxo, oficial, legal, aparentemente “religioso” e piedoso, e o Islã agressivo, violento, materialista e completamente politizado dos fundamentalistas, de fato não vai além do comportamento político de um e do outro. As duas formas se baseiam nas mesmas referencias teológicas, partilham a mesma percepção (e indiferença) cultural, propõem ou defendem o mesmo projeto de sociedade. A diferença é que um está no poder, e tenta manter o status quo, o outro o reivindica, e brada por mudanças. [...]

O fundamentalismo não irá desaparecer da cena do mundo, enquanto o Islã ortodoxo (sunita ou xiita, não importa) não passar por uma revisão crítica, que ponha em evidência seus mecanismos caducos, ultrapassados, parados no tempo, e amarrados às estruturas de poder atuais. Em seu último livro, A doença do Islã, A. Meddeb analiza o fundamentalismo como “um Islã magro e pobre, que opera contra o próprio Islã enquanto civilização e cultura”. Esta mesma análise poderia ser dilatada até afirmar que o mesmo papel negativo coube historicamente à ortodoxia esclerosante dos ‘ulamā’ e dos fuqahā’ que moldou a Sharī’ah desde o quinto século da Hégira, aquela mesma que assumiu uma atitude de inquisição e prendeu ou exilou mentes iluminadas como Ibn Rūshd (Averroés) ou Ibn Tufayl. Para dar nome aos bois, podemos citar o ideólogo hanbalita Ibn Taymia, o grande inquisidor Ibn al-Jawzi (século 12) ou, mais perto de nós, Hassan al-Banna, fundador dos Irmãos Muçulmanos, e al-Mawdudi, que difundiu o fundamentalismo no continente indiano. [...] Este fundamentalismo latente na Sharī’ah e por conseqüência em boa parte da Ummah conseguiu até agora abortar qualquer tentativa de elaboração de uma “mediação” entre a fé e as exigências da modernidade (como aquela operada no Cristianismo), unicamente pela força da pressão objetiva que exerce na área social e cultural, sem nem entrar no mérito religioso. [...]

A ortodoxia e a própria Sharī’ah, da forma como ela é teorizada e aplicada atualmente, são o terreno de cultivo do fundamentalismo; isto se traduz numa aliança objetiva, política e cultural, entre uma e o outro, aliança tácita, não declarada, ou até negada.

Para concluir, o fundamentalismo é a expressão atual, política e ideologicamente ofensiva, contestadora, retrograda e anti-moderna, da ortodoxia que controla a Sharī’ah.

 

Latifa Lakhdar

Professora de Ciências Humanas e sociais na universidade de Tunis.



 Escrito por Abd' al-Jamil às 21h55
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A ideologia atrás do terrorismo ‘islâmico’

 

  O terrorismo que se autodefine ‘islâmico’ está continuamente presente no noticiário cotidiano, e já faz parte da história contemporânea, mas até agora pouco foi escrito e explicado sobre as suas verdadeiras fontes e causas, e menos ainda sobre o movimento ideológico que o sustenta. Um livro recém publicado na Inglaterra, com o título ´Terror’s Source’ (A Fonte do Terror) preenche de forma admirável esta lacuna.

Como explica o autor (V. Oliveti, um pseudônimo para uma personalidade importante do mundo muçulmano moderado), a Al-Qaeda, o antigo regime Taliban no Afeganistão, os chacinadores do Grupo Islâmico Armado argelino (GIA), os fanáticos do Hamas, os seqüestradores filipinos (Movimento Abu Sayyaf), os autores do atentado de Bali, e em geral todas as manifestações do fundamentalismo islâmico mais fanático, violento e brutal estão ligadas por um único fio condutor e uma única ideologia: o Takfirismo, que por sua vez deriva de uma heresia moderna do Islamismo, o Salafismo (que quer dizer ' passadismo' em árabe).

O Salafismo vem deturpando os princípios tradicionais do Islã nos últimos trinta anos, abrindo o caminho para as aberrações dos atentados suicidas, das execuções coletivas, do ódio mortal contra cristãos e judeus, da destruição dos monumentos sagrados (não só de outras religiões, mas até do próprio Islã, como se pode ver em Meca), das mulheres cobertas da cabeça aos pés e proibidas de trabalhar e de estudar, da intolerância religiosa com as minorias e outros excessos inexistentes no Islã tradicional.

  O Salafismo foi conquistando cada vez mais espaço no mundo árabe inicialmente e, depois, no mundo muçulmano, e acabou suplantando quase totalmente os demais movimentos fundamentalistas, como os Irmãos Muçulmanos (Ikhwan Muslimin). Hoje, pode-se dizer que pelo menos 15% dos muçulmanos do mundo (mais de 200 milhões de pessoas) são Salafis ou apóiam ativamente (com dinheiro e/ou com o proselitismo) o movimento, mas sua influência estende-se bem além desse número.

 

A maioria dos Salafis não apóia diretamente o terrorismo, mas todos os terroristas (incluindo Osama bin Laden) e grupos armados muçulmanos atuais seguem o Salafismo, e fazem parte de sua ala mais extremista, o Takfirismo.

 

O Salafismo é uma heresia islâmica fundada no século 18 por Muhammad ‘Abd al-Wahhab na Arábia Saudita. O movimento wahhabita, depois de muitos insucessos, chegou ao poder em 1932 com o fundador da dinastia saudita, o rei Muhammad Ibn Sa’ud, mas ficou restrito ao reino saudita durante várias décadas. Ainda hoje, o órgão central do Salafismo, a Hayat al-Da’wa, liderada por ‘Abd al-Rahman Aal al-Sheikh, está sediada em Riad  (segue).



 Escrito por Abd' al-Jamil às 15h40
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A ideologia atrás do terrorismo ‘islâmico’ (2)

 

Foi só em 1979, com a invasão soviética do Afeganistão e a Revolução Iraniana, que o Wahhabismo começou sua expansão internacional com o nome de Salafismo. Os responsáveis diretos pela sua divulgação e expansão, que tencionava então conter a ameaça soviética e xiita no mundo muçulmano, foram a Arábia Saudita, que forneceu a ideologia, os fundos e os pregadores; o Paquistão, que forneceu a logística, as armas, a organização das escolas islâmicas (madrasas) e os campos de treinamento militar para os militantes; e os Estados Unidos, que por sua vez deram sua aprovação e participaram do planejamento da operação.

   Muitos dos mujahiddin afegãos e dos militantes internacionais que lutaram contra os russos (como o próprio Bin Laden e muitos seguidores da al-Qaeda) foram formados e treinados naquela época, com a ideologia Salafi. A criatura acabou virando-se contra o criador, e para os EUA e seus aliados o movimento transformou-se num perigosíssimo Golem fora de controle.

Os fundamentalistas armados viram na queda da União Soviética depois do fracasso em Afeganistão uma vitória das forças islâmicas, e decidiram continuar essa luta vitoriosa abrindo outras frentes: Bósnia, Albânia, Kosovo, Chechênia, Daguestão, Cachemira, no que alguns analistas chegaram a definir uma Internacional Islâmica, lembrando as Brigadas internacionais na guerra civil espanhola nos anos 30.

    Os mais extremistas criaram o movimento Takfiri, conseguiram a independência em organização, financiamentos e armas, e passaram a considerar os Estados Unidos como a maior ameaça contra o Islã, por ser a ponta de lança da cultura e mentalidade ocidentais, e fizeram deles o alvo prioritário das suas operações (segue).



 Escrito por Abd' al-Jamil às 15h39
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A ideologia atrás do terrorismo ‘islâmico’ (3)

 

O que diferencia o Wahhabi-Salafismo, e mais ainda o Takfirismo, do Islamismo, e por que dele acaba surgindo o terrorismo? O Wahhabismo nasce como uma tentativa de modernização do Islã, mas acaba negando seus principais fundamentos. Os Salafis, em nome da autonomia pessoal e da livre escolha, negam todo o cânon dos textos sagrados islâmicos, com a única exceção do Alcorão.

   Mesmo o Alcorão eles interpretam como lhes parece mais útil, sem aceitar os comentários anteriores, muitas vezes da forma mais literal. Outra novidade importante introduzida pelo Salafismo é a possibilidade de promulgar “fatwas” (editos para os demais muçulmanos) sem ser autoridades religiosas reconhecidas: assim, Osama Bin Laden e seu braço direito, Ayman al-Zawahiri (chefe do movimento egípcio Jihad), sem nenhum fundamento espiritual e sem nenhum direito religioso, proclamaram em 1998 uma “fatwa” que ordenava aos muçulmanos a guerra santa contra os americanos e os judeus.

    Os Salafis são também violentamente contrários à arte religiosa (por isso os Taliban destruíram as gigantescas estátuas de Buda de Bamiyan e os Salafis sauditas, vários edifícios sagrados da história do Islã), à mística, à filosofia e à teologia, aos direitos da mulher, à liberdade religiosa e à tolerância, e mais em geral a todas as formas de cultura, civilização e pensamento.

Por sua vez, explica ‘Terror’s Source’, os Takfiris vão mais longe: eles ainda arrogam-se o direito de decretar que outros muçulmanos são apóstatas (takfiri em árabe, de onde vem o nome do movimento) porque discordam deles, o que lhes dá o direito de matá-los; rejeitam todas as formas de autoridade política a não ser sua própria, vivem em constante Jihad (guerra santa) contra todos aqueles que não os apóiam (inclusive os demais muçulmanos), e finalmente não aceitam nenhuma limitação quanto aos alvos de suas ações violentas (por isso a al-Qaeda visa atingir vítimas civis e o GIA argelino reivindica sem nenhum constrangimento o massacre de mulheres e crianças).

   Contrariamente a qualquer religião revelada, incluindo o próprio Islã, o Takfirismo incentiva o suicídio, e promete o Paraíso àqueles que se matam carregando junto vítimas indefesas, mesmo estes tendo cometido todos os pecados possíveis. Como escreve Oliveti no seu livro, “eles acreditam numa das mais monstruosas inversões que já cruzaram a mente humana: seus seguidores podem ser os piores possíveis, mas se matarem gente e morrerem junto, conseguirão a salvação eterna”.

     Por que o Salafismo, apesar de sua ideologia herética, sectária e iconoclasta, e o Takfirismo, com toda sua violência delirante, conseguiram abocanhar tantos seguidores e tanto apoio no mundo muçulmano? A primeira resposta, segundo Oliveti, é a eficiência da máquina de propaganda criada pela Arábia Saudita e o fluxo de dinheiro colocado a serviço da ideologia Salafi.

   Um exemplo disto: os sauditas financiam a construção de mesquitas no mundo inteiro, com a condição de que o xeque que tomará conta dela seja Salafi. Há milhares de xeques e autoridades muçulmanas locais, no mundo inteiro, que recebem vultosos salários em dólares para apoiar a causa do Salafismo (segue).



 Escrito por Abd' al-Jamil às 15h39
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A ideologia atrás do terrorismo ‘islâmico’ (4)

  No Brasil, a maioria das mesquitas que surgiram por aqui nos últimos dez-quinze anos são regidas por Salafis, o xeque que nelas opera é Salafi, e boa parte das pessoas que as freqüenta, se já não são Salafis, estão sujeitas à pesada propaganda e às pressões ideológicas, políticas e religiosas dos adeptos do Salafismo. O que isto quer dizer? Quer dizer que mesmo aqui no Brasil, os muçulmanos que não se dobrem à mentalidade Salafi, sejam eles simples fiéis de outros ritos ortodoxos ou praticantes do sufismo, poderão ser perseguidos, caluniados, excluídos do ensino muçulmano e das outras atividades e eventos da comunidade, afastados das mesquitas, e nos casos mais extremos até vítimas de agressões verbais e físicas, como já acontece em outros países. Isto quer dizer também que pode haver no Brasil um número indefinido de pessoas ligadas ao setor mais extremista do Salafismo, o Takfirismo, que apóiam ativamente os movimentos extremistas e terroristas na Palestina e no Líbano (Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica Palestina) e até a al-Qaeda, como demonstra a estadia no Brasil em 1995 dos membros da cúpula terrorista, Osama bin Laden e Khalid Shaikh Mohammed.

   Este apoio pode ir desde angariar fundos, até selecionar, recrutar e formar jovens para a luta armada, esconder e abrigar terroristas procurados, ou por fim fornecer material e locais para treinamento.Vários grupos terroristas islâmicos usam projetos e serviços sociais (escolas, hospitais, hospícios, beneficência), mídia e editoras, para sustentar e encobertar suas atividades ilegais, e especialmente para recolher fundos particulares e até públicos sem levantarem suspeitas. Quantos são, por exemplo, os descendentes de palestinos, sírios e libaneses no Brasil – principalmente da área de Foz do Iguaçu – que doam dinheiro para as atividades legais e benéficas do Hamas ou do Hezbollah? Quanto dos fundos doados ajuda a financiar o terrorismo? Quanto recolhem os Salafis  para a zakat (o dízimo muçulmano) no Brasil e quanto é redistribuído nas comunidades Salafis do mundo inteiro (ou para os militantes Takfiri), sem que haja o menor controle da sociedade?

 Até vinte anos atrás, os fundamentalistas islâmicos (os Irmãos Muçulmanos do Egito ou a Jamaah Islamiyyah na Índia, por exemplo) ainda sonhavam tomar o poder para reformar a sociedade e impor os princípios islâmicos, como fez a Revolução khomeinista no Irã. Os Salafis, e especialmente os Takfiris, estão convencendo uma parte cada vez maior da opinião pública muçulmana de que o Islã é, e nada mais é do que a luta (como princípio para todos e como ação para alguns eleitos) contra a modernização e contra a civilização ocidental, uma guerra constante e com todos os meios.

   Por causa desta mentalidade de guerra e auto-defesa, eles conseguem fazer os fiéis muçulmanos esquecerem das finalidades religiosas e espirituais, para concentrar-se sobre os aspectos políticos e sociais. Num mundo cada vez mais secularizado e menos espiritualizado, nem é muito difícil repassar esta mensagem.

     As razões mais profundas para o sucesso do Salafismo estão na pobreza e desemprego generalizado em grande parte do mundo islâmico, na ignorância e no baixo nível educacional e cultural, na insatisfação e frustração de grande parte dos povos muçulmanos com os regimes ditatoriais ou autoritários que os oprimem, na sensação de inferioridade em relação ao Ocidente e de impotência diante das mudanças aceleradas do mundo moderno (segue).



 Escrito por Abd' al-Jamil às 15h38
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A ideologia atrás do terrorismo ‘islâmico’ (5) 

A maioria dos sectários e prosélitos do Salafismo mal sabe ler e nunca leu livros. Mesmo a maioria dos próprios xeques Salafi sabem pouco ou nada das doutrinas islâmicas, senão nem poderiam aderir a um movimento que distorce e manipula a doutrina sagrada e refuta seus exemplos mais elevados. Todos se contentam em seguir e adotar sem questionamento os ensinos e ditados primários que lhes são repassados por ideólogos e líderes sem escrúpulos (como os xeques Ibn Baz, al-Albani, Abu Hamza, Omar Bakri e outros). 

O Salafismo tira proveito da desculturação das massas muçulmanas, que foram perdendo suas características culturais, suas tradições, suas estruturas internas e seus princípios sob a pressão do mundo moderno e ocidental, para recriar e impor um Islã pretensamente “universal”, “purificado” de seus costumes locais e tradições antigas, e portanto adaptável a todas as sociedades, principalmente urbanas.

   Os alvos do Salafismo não são as comunidades reais, ainda sólidas e estruturadas, mas os indivíduos isolados, produto do desmembramento de suas nações, coletividades, famílias, que buscam sua identidade perdida numa fé sem passado, sem fundamentos reais, sem verdadeiro conteúdo a não ser um fanatismo primário, cego e obtuso. Os Salafistas sonham em levar a comunidade muçulmana a uma universalidade desligada de qualquer identificação com um território, com um período histórico, com uma forma de cultura, com uma tradição. As massas islâmicas tendem assim a buscar refúgio numa ideologia pseudo-religiosa primária e radical, que lhes garante um Paraíso acessível e até a possibilidade, nos casos mais extremos, de uma vingança sobre aqueles a quem atribuem a culpa por sua situação miserável. E eis que aí está um fato incontornável, decisivo para se entender o que agora o mundo vive, e assiste: a situação miserável de grande porção das massas islâmicas.



 Escrito por Abd' al-Jamil às 15h18
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  01/01/2004 a 31/01/2004


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